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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Lua Negra

Primeiro Capítulo de Lua Negra, de Laura Elias


O loiro alto olhou interessado para a mulher à sua frente. Ela já não era jovem, mas era extremamente bela. E pela maneira como o abordou, tinha tanto caráter quanto ele, que não tinha nenhum.
O homem lhe acenava com a liberdade, com a possibilidade de vingar um ódio antigo, em troca de alguns favores. Ela estava disposta a negociar, ele sempre aberto a negociações
Ela era louca, ele um psicopata. Os dois eram perfeitos um para o outro.
Ele colocou seu preço, ela pediu alguns dias para pensar.
Logan, no entanto, não era idiota. Sabia que ao aceitar aquele acordo estaria empenhando muito mais do que a possibilidade de ser capturado e preso: seu pescoço estava em jogo.
Ela era muito perigosa e contava com um sobrenome de peso.
Ele tinha apenas um carma ruim.
Alguns dias depois a mulher voltou com a resposta: aceitaria as exigências se ele concordasse em entregar-lhe Megan Grey com vida. Ela mesma queria matá-la da maneira mais lenta e dolorosa possível. Quanto ao irmão de Logan, Sebastian, ela o localizara no Ártico, vivendo entre os agura.
Ah, sim! Ao contrário do que todos pensavam, os agura existiam e continuavam tão selvagens quanto sempre se acreditou que fossem.
Por que aquela mulher tinha tanto interesse em matar uma humana, ele não conseguia entender. Assim como não entendia por que ela mesma não a capturava, mas imaginou que fosse algo ligado ao peso de sua família: os Blackwell não gostavam de sujar as mãos.
Ele foi solto e enviado ao Canadá de avião, viajando de primeira classe em meio a humanos endinheirados como se fosse um deles.
O restante do trajeto fez a pé, exercitando os músculos há tanto tempo parados.
Encontrou seu irmão vivendo como um selvagem em meio à neve, cercado por aquele povo asqueroso e bruto como se estivesse no Paraíso. Não foi difícil convencê-lo a partir. O difícil foi sair de lá sem um exército de aguras atrás deles.
Os selvagens demoraram algum tempo para perceber que Sebastian sumira e, quando se deram conta, partiram em seu encalço. O resultado disso foi o pior inverno que os humanos já haviam presenciado. Logan sabia que eles eventualmente acabariam por encontrar seu irmão e, quando isso acontecesse, Megan Grey já estaria morta há muito tempo...




Até que demorou a acontecer, se alguém parar para pensar. Os sinais estavam todos ali há semanas. Mas eu não queria vê-los...

CAPÍTULO I – MEDO DO
ESCURO.


Have you run your fingers down the wall
And have you felt your neck skin crawl
When you're searching for the light?
Sometimes when you're scared to take a look
At the corner of the room
You've sensed that something's watching you
(Fear of the Dark – Iron Maiden)

Nevava pesado há mais de uma semana. Os ventos estavam mais gelados do que o habitual em nossos invernos. Todos os dias, acordávamos com as máquinas da prefeitura limpando as ruas, suas pás gigantes raspando e afastando a neve das calçadas.
Em Red Leaves não havia aquecimento global, havia congelamento global. Tudo estava branco e embora paisagens nevadas possam parecer atraentes para quem vive em lugares ensolarados, garanto que não havia nada de atraente em caminhar com neve até os joelhos, ter o motor dos carros congelado e viver sob a ameaça de falta de energia.
O aquecedor de nossa casa, um modelo antigo e nada ecológico movido a óleo, trabalhava com força total. Mesmo assim temíamos que a energia faltasse a qualquer momento. Já era um milagre ainda não ter acontecido.
O inverno estava sendo um tormento para todos: há uma semana meu pai não dormia em casa, pois era impossível viajar de Green Falls até Red Leaves em segurança. Ou seja, ele estava temporariamente instalado na casa de Joyce, minha avó materna.
Minha mãe andava com os nervos à flor da pele, preocupada que eu tivesse uma recaída após meu estranho acidente.
Fred, como sempre, estava insuportável, correndo para cima e para baixo, criando caso por qualquer coisa.
E o pior, muito pior do que tudo: eu e Bill não podíamos nos ver.
Claro que a neve não era problema para ele, mas como explicar à minha mãe que só Bill conseguira se deslocar em meio às nevascas quando ninguém mais era capaz disso? E ele estava de viagem marcada para Los Angeles dentro de dois dias, onde a banda faria uma apresentação num show beneficente em prol das vítimas de uma catástrofe. Dessa vez eu não poderia acompanhá-lo: eu tinha aulas. Nunca odiei tanto ter 17 anos!
Como se não bastasse, precisava voltar a ver o Dr. Strideus. O remédio que ele me dera estava terminando.
Enfim, meu começo de ano, que havia sido um sonho, se transformara em um pesadelo irritante.
Uma semana antes de terminar janeiro, a energia elétrica finalmente acabou. Por volta das sete da noite, quando nos preparávamos para jantar, o mundo mergulhou nas trevas. Todas as luzes da cidade se foram, silenciando rádios e TVs. A escuridão deixou no ar apenas o som do vento que assobiava uma canção mórbida e sem vida.
Foram apenas alguns segundos de silêncio antes que as pessoas começassem a procurar velas e lanternas, a telefonar para a central de energia em busca de informação, mas os segundos foram agourentos. Estranhos. Dando a sensação de que precediam uma catástrofe.
Quando as luzes se apagaram, Fred estava sentado na mesa, minha mãe tinha uma tigela de purê de batata nas mãos e eu vinha entrando na cozinha.
O primeiro som que ouvi foi o grito dela. O segundo, da tigela se espatifando no chão. Tudo isso em segundos que demoraram milênios. Segundos que me fizeram dar conta de que eu enxergava perfeitamente, embora não houvesse luz alguma. Eu via na escuridão! Isso pode parecer incrível, mas me apavorou até os ossos.
Como eu podia estar vendo tudo com tanta clareza? Olhei para Fred e para minha mãe sem conseguir raciocinar direito.
– Que foi? – gritei para Fred, assustada.
– Seus olhos! SEUS OLHOS! – ele gritou de volta.
Estávamos todos falando aos berros, apavorados.
– Mãe! – gritei quando a vi tentando se amparar na mesa antes de desmaiar.
– MONSTRO! – berrou Fred na minha cara.
Com uma agilidade que com toda a certeza deste mundo eu não possuía, saltei sobre a mesa e por cima de Fred em direção à minha mãe. Para piorar, o som da porta da frente sendo aberta com violência me fez rosnar alto, de forma pavorosa, e saltar para longe da mesa. De relance, vi meu irmão gritar e se esconder apavorado.
Eu me virei depressa e percebi os quatro homens imóveis, me olhando como fantasmas.
Eles eram enormes.
Apesar de minha visão noturna ser perfeita, era impossível distingui-los com clareza. Eles não emitiam som algum. Sequer pareciam respirar.
– Bill? – perguntei ofegante, tentando me agarrar a um fio de esperança que não existia. Rápido como um raio, um pensamento passou por minha mente e me congelou de pavor: vampiros!
Nós estávamos sendo atacados por vampiros!
Desesperada, tentei alcançar Bill por telepatia. Apavorada, me foi impossível coordenar os pensamentos concentrar-me em qualquer coisa que não fosse o medo daqueles predadores. O que fazer?!
Um deles deu um passo em minha direção e eu urrei instintivamente, parada em posição de ataque. Esperava intimidá-los para que se afastassem dali, mas não foi o que aconteceu. O vampiro caminhou em minha direção com passos suaves, como se deslizasse pelo chão ao invés de andar.
Os outros três se aproximaram de Fred e de minha mãe, que continuava desmaiada no chão.
– Leve todos – disse o homem que se aproximava de mim. Sua voz era sonora e agradável.
Uma voz forte, que eu conhecia... Mas conhecia de onde? E por que eu era incapaz de vê-los com clareza quando tudo o mais estava nítido diante de mim?
Em um último gesto de desespero, tentando proteger minha família, saltei sobre o desconhecido, sentindo que possuía garras nas mãos e que elas estavam expostas como lâminas de aço. Com extrema agilidade e rapidez ele se desviou e, com um movimento preciso, me dominou.
Agora seu rosto estava a alguns centímetros do meu, e mesmo assim eu não conseguia vê-lo com nitidez.
– Calma, Megan! – sua voz era imperativa.
Eu estremeci.
Aquela voz! Aquela era a voz em meus sonhos! Mas como era possível se a voz em meus sonhos era a voz de Bill?
Esforcei-me para apurar ainda mais meus sentidos, mas era inútil tentar ver seu rosto ou sentir seu cheiro. A única coisa que percebi antes de apagar foi uma grossa trança dourada caindo sobre seu ombro...

Abri os olhos em um lugar frio e escuro, sentindo algo áspero em minha pele. Demorei vários segundos para perceber que minha cabeça estava coberta e por isso eu não enxergava. Minha boca estava seca, com gosto de ferrugem, como se eu tivesse chupado um prego velho.
Lentamente me ergui e o pano grosso que envolvia meu corpo caiu ao chão. Eu estava nua! Nua em um lugar completamente deserto e coberto de neve, sob um céu negro e carregado, sentindo o vento congelante açoitar meu corpo.
Rapidamente me enrolei no velho cobertor. Estava tão apavorada que nem lembrei que minha visão clara e instintos aguçados poderiam me tirar dali. Então, pensei em minha mãe e irmão e o pânico descontrolado se instalou de vez.
Fiquei desesperada e comecei a gritar por socorro, sem realmente acreditar que alguém fosse me ouvir. Berrar pedindo ajuda, ouvindo o som de minha voz ser carregada pelo vento feroz.
Aqueles momentos foram os piores da minha vida. Nem quando achei que o vampiro fosse me matar senti tanto medo. O que mais me apavorava era o fato de eu estar completamente sozinha no meio de um nada congelado. Ao menos quando pensei que ia morrer, Simon estava comigo e eu ouvia Bill telepaticamente. Agora, não. Agora eu estava só e não possuía força, ou coragem suficiente, para sair dali.
Eu era só uma garota de 17 anos, metida em uma encrenca maior que eu Em velocidade astronômica, me culpei por ter me envolvido com rovdyrs e mais ainda por amar um deles. Afirmei que ia morrer; que era bem feito por eu ser tão imbecil. Desesperei-me novamente por minha família, pensei em Bill, Simon, Sarah, Alice, no colégio e na tigela de purê de batatas espatifada no chão. Pensamentos desconexos, atravessando meu cérebro, me apavorando ainda mais. Não havia mais esperanças para mim, eu ia morrer ali, congelada e sozinha, sem nunca saber como a história de minha vida iria terminar. Eu estava fechando o livro logo nos primeiros capítulos.
Começava a entregar minha alma ao Universo, quando tive a impressão de ouvir algo se mover ali perto. Foi mais uma impressão de movimento do que propriamente um som, e eu recomecei a gritar por socorro com todas as forças do meu ser.
E então, quando tive certeza absoluta de que não havia ninguém além de mim na vastidão gelada, que meu destino estava selado, o milagre aconteceu.
– Megan!
O som veio de longe, mas foi o bastante para fazer meu coração pular e reacender minhas esperanças. Continuei gritando e gritando até que vi a figura delicada e imponente de Pops surgir à minha frente.
Eu estava salva! Não morrera no acostamento da estrada, não morrera nas garras de um vampiro e também não morreria congelada no meio da neve! Mais uma vez a sorte estava do meu lado.
– Megan! Pensei que jamais iria encontrá-la!
Eu a olhei com curiosidade. Pops estava me procurando? Como ela sabia que eu estava perdida?
– Bill me mataria se eu não a encontrasse. Ele mal chegou à L.A. e já queria voltar!
Bill estava em Los Angeles? Como assim? Há quanto tempo eu havia desaparecido?
Eu me joguei nos braços de Pops, chorando de alívio e pavor. O cobertor escorregou
e ela recuou, assustada.
– Meu Deus, Megan, o que houve com você? Que marcas são essas?
Balancei a cabeça e a abracei. Ela entendeu que eu não fazia idéia do que havia ocorrido.
– Venha. Vou tirar você daqui. Segure-se, OK?
Assenti com a cabeça e Pops saiu a toda velocidade pela floresta branca, zunindo entre as árvores que eram meros espectros retorcidos de suas versões verdejantes. Toda a vida fora substituída pela aridez gelada do ciclo estéril do inverno. Eu temia que o mesmo acontecesse comigo.

***

Hanzi Mare é meu nome. Os mais próximos me chamam Hans. Os que me seguem acreditam que seja o rei de todos eles. Entretanto, jamais fui ou serei um rei. Não na verdadeira acepção do termo.
Não possuo terras ou trono, não comando a economia ou o bem estar social de uma nação. O que faço, e talvez daí venha a analogia, é comandar uma legião de seres hostilizados e perseguidos, que se infiltram, existem e habitam as sombras do mundo.
O termo “legião” se aplica de forma perfeita a nós, os vampiros.
Somos mito e somos lenda, mas não existimos apenas porque os humanos são supersticiosos. Somos reais.
Muitos dizem que vampiros não passam de uma alegoria inventada para falar de sexo quando o assunto era tabu entre os homens. Outros, que personificamos qualidades que as humanas desejam em seus pares. Há ainda aqueles que, em um delírio criativo, atribuem nossa origem a Caim, o primeiro assassino registrado na Bíblia.
É dos humanos a prerrogativa de contar suas histórias como desejam, eles são a raça dominante do planeta. Uma raça implacável, que destrói e aniquila como se estivesse acima do Bem e do Mal.
Já vivemos o suficiente para compreender que a arrogância é sempre derrubada pela vida, em algum momento transformada em sabedoria e equilíbrio. Um dia, os humanos também aprenderão.
Minha história começou há muito tempo e não pretendo contá-la agora, mas quero dizer que por séculos persigo um objetivo. Nessa perseguição, adquiri seguidores que se multiplicam a cada dia. A nação dos vampiros adquiriu um objetivo que a uniu quase que integralmente.
Alguns, entretanto, não concordam com meus métodos de ação e preferem abraçar uma natureza bestial e assassina. Foi o caso de Axs, o vampiro que raptou, torturou e quase matou Simon Blackwell e Megan Grey. Não tivesse Bill Stone e seu grupo chegado a tempo, nós iríamos intervir e destruir Axs. Mas eu conheço Bill. Ele não deixaria sua amada morrer. Não outra vez. Porém, não é de Bill que quero falar, mas de Megan.
Tão jovem e linda, dona de olhos puros, de uma alma generosa, ela carrega consigo a chave de nossa existência. Há séculos esperamos por ela. Eu demorei tanto a compreender isso! E quando compreendi, cometi inúmeros enganos, tão ávido que estava por encontrá-la.
Soubemos de seu nascimento por meio de Destiny, cujos poderes vão além do que nos é dado compreender. Ela é o que os humanos chamam de “sensitiva”, os supersticiosos de “bruxa” e nós de “luminosa”, já que entre nós a luz é algo precioso e almejado.
Destiny, entretanto, não conseguia nos dizer em que ponto do planeta a menina nascera e eu logo percebi que nada do que eu pudesse lembrar, me ajudaria a encontrá-la. Decidi que o mais sensato seria deixar Bill encontrá-la, Sabia que ele reviraria céus e terras para ter sua amada outra vez. Também para ele foi uma busca de anos, com muitos enganos cometidos, inclusive confundindo Megan com Joyce.
Eu a vi pela primeira vez em um estacionamento no meio do mato, cercada por marginais. Cheguei a pensar que seria interessante aparecer naquele momento e salvá-la, mas a presença de Pops me inibiu.
Sabia que ela estava ali procurando por Christian, o filho de Lizandra Blackwell, e ouvi quando chamou Bill para que ele fizesse sua entrada triunfal.
Meu sangue ferveu e senti meu coração se enegrecer ao vê-lo. Queria matá-lo ali, na presença dela e contar-lhe toda a verdade. Absurdo!. Megan não estava preparada para ver e ouvir os horrores que nosso passado encerra. Ela precisava acreditar que Bill era o herói de sua história, precisava conhecer mais, saber mais, antes que a verdade fosse revelada.
Desde então não deixei de segui-la ou a sua família, sempre pronto a intervir, sempre esperando que o momento surgisse. A espera é torturante quando sabemos que o desfecho de algo grave se aproxima.
Eu contava os dias, até que a ajuda veio de forma inesperada e me colocou frente a frente com aquela em cujas mãos reside o destino de todos nós...
Hans
* * *

Eu não fazia idéia de onde estávamos. Pops me colocou no carro e saiu a toda pela estrada escorregadia, dirigindo de uma forma que me fez pensar por que ela me salvara se pretendia nos matar em um acidente. Do que eu já havia visto de rovdyrs, todos tinham fixação por velocidade e perigo. Apenas fechei os olhos e relaxei.
O calor do carro me fez bem, embora eu continuasse agarrada ao cobertor. Sentia uma necessidade sobre-humana de me agarrar a algo e, naquele momento, o cobertor era o bem mais precioso que eu tinha. Lentamente meu corpo começou a se aquecer e só então percebi que havia musica no ar. Pops estava ouvindo Lady Gaga no último volume e as palavras voavam dentro do carro, reverberando em meus ouvidos e em meu coração: I want you ugly, I want your disease, I want your everything...
Olhei para ela de modo estranho e Pops respondeu sem se virar:
– Gosto dessa música. Cheia de drama, intensidade, paixão.
– Ah.. – respondi com voz sumida, sem condições de falar. Meus olhos pesavam e meu corpo, agora já sem adrenalina, doía horrivelmente. Tudo que consegui fazer foi me encolher e deixar o cansaço tomar conta.
Acordei muitas horas depois, banhada e limpa, entre os lençóis perfumados no quarto de hóspedes, da mansão de Bill. O Dr. Strideus me olhava fixamente:
– Como se sente? –perguntou enquanto tomava meu pulso.
– Bem... acho. Minha família está aqui?
– Não, Megan. Sua mãe e irmão continuam em Red Leaves. Estão bem, não se preocupe.
– O que aconteceu, Dr. Strideus? Não entendo--
– Olá, Megan. Que bom vê-la acordada – exclamou Pops entrando no quarto. – Ela está bem, doutor?
– Pelo que tudo indica, sim.
– Eu estou ótima! – exclamei. – Obrigada por me encontrar antes que eu congelasse naquele lugar.
– Não fui eu quem a encontrou, Megan. Já contou a ela, Strideus?
– Contar o quê? – perguntei, sentindo o coração disparar. O que havia acontecido comigo, afinal?
– Ela acabou de acordar – respondeu o médico.
Pops me encarou e suspirou profundamente.
Sua expressão era séria e só podia significar que más notícias estavam a caminho.
Olhei para ela por alguns segundos e decidi comentar sobre as estranhas mudanças que estavam acontecendo comigo.
– Eu... eu tenho sentido umas coisas esquisitas desde que Bill... Desde que o sangue de Bill...
– Que coisas esquisitas? – perguntou ela.
– Eu... bom... às vezes, eu rosno. E salto e urro. E vivo bebendo água gelada e quase não como mais...
– Como?! – Pops arregalou os olhos e se virou para o doutor. – Você sabia disso, Strideus?
– Sim. Desde o Natal venho dando a ela uma medicação para diminuir os sintomas.
– E não falou nada? Bill está sabendo?
– Não! – respondi assustada. – Eu não quero que ele saiba, Pops! Bill é todo encanado que o sangue dele pode ter me feito mal e--
– Você é louca! Mas suponho que deva ser para conviver conosco. Qualquer um em sã consciência já teria sumido há muito tempo. Bem, sinto dizer, mas você está se transformando em um animal. Sabe ao menos qual é?
Meus olhos se encheram de lágrimas. Como Pops ousava verbalizar aquilo que eu sequer sonhava em admitir para mim mesma?
– Não... – respondi com voz trêmula.
– Muito bem. Depois de adormecer em meu carro, você balbuciou frases desconexas sobre quatro homens terem aparecido em sua casa. Isso aconteceu realmente?
– Sim. Faltou energia... as luzes se apagaram e de repente minha mãe desmaiou. Alguém arrebentou a porta... e eu vi quatro homens muito altos na entrada da cozinha. Um deles se aproximou de mim. Saltei sobre ele sentindo garras saírem de minhas mãos, mas o homem foi mais rápido e me dominou. Não vi o rosto de nenhum... eles levaram minha mãe e meu irmão!
Novamente tive a incômoda sensação de que não estava me lembrando de algo importante.
– Algo mais? – Pops perguntou, intrigada.
– Não... A próxima coisa de que me lembro é ter acordado onde você me encontrou. Tem ideia de quem eram aqueles caras?
– Vampiros – ela respondeu sem hesitar. – Bem, agora é minha vez de falar.
Pops tomou fôlego, mas o telefone tocou. Strideus atendeu e o entregou a mim.
– É Bill – ele disse, com voz indiferente.
Senti lagrimas se juntarem em meus olhos e rolarem pelo rosto.
– Bill!
– Megan, como é bom ouvir sua voz! Você está bem?
– S-sim – respondi e caí no choro sem conseguir me controlar.
Pops e Strideus saíram do quarto e só voltaram quando a conversa terminou. Ouvir Bill refez minhas forças e deu nova vida à minha alma.
Ele queria saber como eu estava, como estava minha família e disse que me amava e que voltaria assim que terminasse a apresentação em L.A. Ficamos namorando no telefone por algum tempo, mas senti muita preocupação em sua voz. Ele disse que era impressão minha. Bill sempre procurava me poupar de tudo, tentando me proteger daquilo para o qual não havia proteção: o destino.
Pops retomou nossa conversa como se não tivesse sido interrompida.
– A falta de energia que pegou vocês de surpresa foi causada por uma avalanche a alguns quilômetros de Red Leaves. Várias linhas de transmissão ficaram soterradas, inclusive torres de telefonia celular. Nesse meio tempo, conseguimos um vôo até Nova York e de lá para L.A. Bill tentou falar com você, mas não conseguiu.
Ela fez uma pausa. Oh-oh - eu pensei. Lá vem bomba:
– Só que enquanto Bill voava para Nova York, outro fenômeno aconteceu – Pops continuou. – Uma tremenda quantidade de neve caiu sobre o rio e acabou provocando uma enxurrada de lama que atingiu diretamente Red Leaves.
– Meu Deus! Minha casa... meus pais--?
– Infelizmente sua rua foi uma das mais atingidas, mas não houve vítimas.
O tempo parou em minha cabeça. Não era a primeira vez que algo assim acontecia em Red Leaves, mas minha família nunca tinha sido atingida diretamente.
– E agora? – perguntei com angústia. – Minha mãe deve estar desesperada!
– Não se preocupe, nós vamos ajudá-los a reconstruir tudo. Temos os recursos necessários para tanto, mas essa não é a questão principal. Há algo bem mais grave acontecendo.
Achei que Pops tinha ficado maluca. Uma catástrofe atingiu minha cidade e provavelmente minha família não tinha mais onde morar. O que poderia ser mais grave do que isso?
– Vampiros – a palavra escapou de meus lábios sem que eu me desse conta.
– Sim. Você só está viva porque eles a salvaram e a sua família também. E eu só a encontrei porque Christian me avisou onde você estava. Ele salvou sua vida.
De repente, parei de entender o que Pops dizia. Eu precisava de tempo para absorver aquilo tudo. Que inferno! Ela falava em vampiros e Christian, mas eu só via os discos, livros, roupas e móveis que na minha imaginação flutuavam em um mar de lama.
– Meus pais... e Fred...?
– Seu pai está em Green Falls. Sua mãe e irmão estão bem... eles foram resgatados pelos vampiros e levados para o hospital. Como os dois não sabiam como foram parar ali, imagino que tiveram suas lembranças apagadas. Mas todos estão bem. Só você estava desaparecida.
– Pops... eu não estou entendendo. Os Vampiros morderam alguém? Eles não são monstruosos e querem destruir vocês?
– Ninguém foi mordido ou morto até agora e também não consigo entender por que ajudaram você e sua família.
– Você disse... que Christian me salvou?
– Sim. Ele pressentiu que você estaria na mata e me indicou o local. Christian está bem melhor, embora ainda não seja seguro deixá-lo totalmente livre para seguir sua vida. Pode demorar algum tempo até perder todas as características vampirescas que possui.
– Mas... nós nunca nos vimos. Como ele sabia quem eu era?
Pops se calou, na certa pesando se deveria ou não me contar certas coisas, até que começou a explicar:
– Alguns vampiros possuem uma espécie de sexto sentido e conseguem pressentir coisas. Esse é o tipo mais perigoso e mortal de predador que existe. Christian pertence a essa classe. Ele nunca viu você pessoalmente, mas a conhece através de meus pensamentos, de Strideus e de Bill. Não esqueça que o sangue de Bill corre nas veias dele.
– Mas por que Christian iria querer me salvar?
– Ele está se curando, Megan, e sente-se agradecido pelo que temos feito em prol disso. Sabendo o quanto você é querida por todos nós, ajudar a salvá-la foi uma maneira de retribuir o que está recebendo. Christian me disse onde você estava e como havia chegado lá.
– Eu estava nua! Será que os vampiros... será que eles...
Ela soltou uma sonora gargalhada.
– Vocês humanos são incomparáveis! Acabo de dizer que aconteceu uma desgraça em sua cidade e que outra muito pior é iminente e você está preocupada com pudor? Megan, se eles a tivessem usado para saciar desejos sexuais, acredite, você já estaria morta.
– Bom, então por que eu estava nua?
– Na certa porque estava transformada quando a deixaram na floresta. Era obvio que voltando ao normal você estaria nua e morrendo de frio. Por que acha que havia um cobertor sobre seu corpo? E as marcas sem dúvida foram fruto de você ter se debatido em algum momento, mas já devem ter sumido.
Eu me senti uma idiota por não ter percebido isso. Enfiei a cabeça por baixo das cobertas e dei uma olhada em meu corpo. Não havia mais marca alguma.
– Você e sua família foram salvas por vampiros que previram o que aconteceria em Red Leaves, Megan. Eles deliberadamente foram até lá para salvá-los! Como se isso não fosse o suficiente, tiveram o cuidado de deixá-la onde ninguém poderia vê-la transformada ou voltando à forma humana.
Eu a olhei sabendo que minha boca estava aberta e meu olhar transmitia incredulidade.
– Não tem lógica – balbuciei.
– Nenhuma – concordou Pops. – Nenhuma que possamos entender, mas eles não fariam isso a troco de nada. Entende agora por que é tão importante nos contar cada detalhe do que aconteceu aquela noite?
– Bill sabe sobre os vampiros e tudo mais? – perguntei, mudando de assunto.
– Não, ele só sabe da avalanche. Esse tipo de coisa não se fala por telefone.
– Fez bem, mas ele vai ficar furioso quando souber.
– Querida, eu vivo com cinco rovdyrs e tomo conta deles há séculos. Acha mesmo que tenho medo da fúria de Bill? Além do mais, ele não é páreo para mim. Nenhum deles é.
Eu apenas a olhei. Bill já havia me falado sobre a força de Pops, mas achei que ele estava exagerando.
– Quando vou poder ver minha família? – perguntei, procurando resolver uma coisa de cada vez.
– Assim que parar de nevar, eu vou buscar sua mãe e seu irmão. Vocês vão ficar conosco até que tudo se resolva. Seu pai ligou e pediu isso.
– Meu pai? Ele sabe alguma coisa sobre mim?!
– Só o que foi possível lhe contar. De qualquer maneira, ele está mais tranqüilo agora que você está aqui. Tome – disse ela, me passando o celular. – Ligue para ele. Eu e Strideus vamos deixá-la sozinha por alguns instantes. Temos coisas a resolver.
– Dr. Strideus? – chamei.
Ele me olhou com interesse, algo muito raro.
– O remédio que o senhor estava me dando... eu ia precisar de mais de qualquer forma.
– Não apenas de mais, Megan, mas de doses mais fortes, ao menos até resolvermos esta situação. Em algumas horas ele estará pronto. Fique tranquila, vamos cuidar de você.
Falei com meu pai e o tranqüilizei quanto ao meu estado. Falei também com minha avó que, claro, perguntou por Bill, mas ficou feliz de saber que eu estava bem. Devo ter adormecido logo em seguida porque sinceramente não me lembro de mais nada.
Sonhei que havia um exército de homens enormes, de cabelos quase brancos, marchando em direção a Red Leaves e que alguém gritava “corram para as colinas, corram para as colinas!”. Só que em Red Leaves não havia colina alguma...

* * *

Algo me dizia que não deveríamos ir a L.A. Para o inferno com as entrevistas e shows, mas a banda não era só minha, era de todos nós, e Pops foi firme quando afirmou que se não fossemos,s ela não seria mais nossa produtora.
Por anos, a banda, que havia sido minha maior felicidade, agora se transformava em um estorvo; eu precisava urgentemente equilibrar as coisas se quisesse ter ao menos uma chance de vida normal com Megan. “Normal” parece algo absurdo quando se é um rovdyr, mas eu devia isso a ela, após tudo que a havia feito passar. E eu sabia que o pior ainda estava por vir.
Megan estava se transformando, contaminada por meu sangue, que supostamente deveria lhe salvar a vida; e eu, covarde, não conseguia dizer a verdade com medo de perdê-la.
Havia sempre algo em meu coração gritando que cedo ou tarde tudo seria demais para ela e que a mulher da minha vida me deixaria por vontade própria. Ela havia superado a história macabra que lhe contamos, o ataque do vampiro, a imensa diferença de idade e de vida entre nós, mas será que superaria o fato de que dali em diante não era mais humana?
Estávamos pousando em Los Angeles quando Pops ligou avisando sobre a avalanche. Megan estava desaparecida. Quase enlouqueci. Avisei que íamos voltar, mas não tínhamos como chegar imediatamente a Red Leaves. Aquele vôo já havia sido um milagre. Conseguir outro de volta seria impossível. E mesmo para nós, a distância era enorme. Levaríamos dias para voltar.
Passei horas irascível, andando de um lado para o outro, ligando para Pops a cada cinco minutos, até as torres de retransmissão deixaram de funcionar. O contato telepático com Megan estava impossível: toda vez que me concentrava nela, surgia em minha mente a imagem de Red Leaves totalmente às escuras e o som de uma grande avalanche se aproximando. Não conseguia acreditar que depois de tudo, a natureza fosse levá-la de mim. Não! Tudo menos perdê-la outra vez!
Então, durante a madrugada, Pops ligou avisando que Megan já se encontrava em casa, e que tudo estava bem. Os detalhes, disse ela, eu saberia quando fosse possível. Não gostei da voz de Pops. Senti que ela me escondia alguma coisa, que algo muito, muito ruim estava acontecendo e que eu já começara a pagar o preço da felicidade vivida em Nova York.
Passei horas ligando para casa até que finalmente consegui falar com Megan! Ouvi-la chorar partiu meu coração. Nunca desejei tanto poder abraçá-la e afagar seus cabelos, dizer que tudo ficaria bem, encantá-la com minha voz e fazê-la passear pelas estrelas, como ela tantas vezes me dissera que acontecia!
Deus, como eu amava aquela menina! Como eu amava aquela mulher! Sacrificaria minha vida pela sua sem pestanejar, colocaria fogo do mundo, faria qualquer coisa apenas para que ela estivesse bem e feliz.
Dois dias e estaríamos de volta. Dois dias e eu poderia cobri-la de carinhos e mimos, recompensá-la por tudo o que havia passado. Dois dias que demorariam séculos para passar, tal a minha ansiedade.
Já havia começado a fazer planos para reconstruir a casa de sua família, imaginando que Frank não aceitaria nada além do que havia perdido, mas ainda assim podíamos fazer algumas melhorias, modernizar algumas coisas. Tudo para que fossem mais felizes. Tudo para que Megan sorrisse mais.
Tudo por ela. Sempre. Afinal, já não havia sido assim antes?
Bill

Fonte:http://www.lauraelias.com.br/lua_negra_33.html

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